Entrevista: “Nunca consideramos a hipótese de que o Festival de Brasília não fosse acontecer (em 2026)”, diz Eduardo Valente

entrevista de João Paulo Barreto

Na primeira quinzena de agosto, uma notícia caiu como uma bomba no meio cultural do cinema brasileiro: o Festival de Brasília, o mais longevo evento cinematográfico do país, seria cancelado pela primeira vez desde a ditadura devido a atraso no repasse de recursos do Governo do Distrito Federal destinados à organização do evento. “Foi um pico de tensão de 48 horas”, revela Eduardo Valente, diretor artístico do Festival, em entrevista ao Scream & Yell. Após um breve impasse orçamentário, o governo local liberou as verbas necessárias e a realização do festival foi confirmada.

“Enquanto direção do festival, nunca cogitamos não realizá-lo. Nunca consideramos a hipótese de que o festival não fosse acontecer”, explica Eduardo. “O que poderia se cancelar seria a participação da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Mas a gente ia construir caminhos alternativos”, pontua. O episódio, estressante, trouxe um ponto positivo, segundo Eduardo: “Foi tornar mais claro para alguns gestores que não estejam tão ligadas ao universo específico do cinema brasileiro, da história do festival de Brasília para entender que esse festival é um pouco maior do que algumas pessoas pudessem imaginar”.

A curadoria da edição 2026 do Festival de Brasília já estava finalizada quando o episódio ocorreu, o que permitiu a Eduardo, responsável pela direção artística, auxiliar Sara e Henrique Rocha, responsáveis pela produção do evento. O processo curatorial da edição desse ano traz novos trabalhos de nomes como Julio Bressane, Ary Rosa e Glenda Nicácio, Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, André Novais Oliveira, Caetano Gotardo, Thamires Vieira, além de apresentar um trabalho póstumo de Silvio Tendler e contar com “A Pele Morta”, uma espécie de homenagem ao cineasta Geraldo Moraes, na abertura do evento.

“’A Pele Morta’ é um filme que cumpre várias funções”, observa Eduardo. “É um filme absolutamente engajante no sentido humano, dramático, narrativo. É um road movie dentro de toda uma tradição desse gênero, que se passa quase todo dentro da boléia de um caminhão, entre dois ou três personagens que ficam ali convivendo e que vão traçando laços e tendo tensões e tal. E tem toda essa história com o próprio cinema de Brasília a partir da figura do Geraldo (Moraes), que foi um cineasta dos mais decisivos para formação de um cinema específico do Distrito Federal. É um filme que caiu como uma luva” (saiba mais sobre o filme aqui).

Na conversa abaixo, Eduardo Valente aprofunda o olhar sobre outros filmes da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ele fala sobre “Tempo à Faca”, filme escrito e dirigido por Diogo Oliveira tendo Ruy Guerra como co-autor, a posição hors-concours de Julio Bressane no evento, que participa com “Pitico”; e do retorno, dez anos depois de “Café com Canela”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio com “Todo o Sentimento”. Leia abaixo!

O Festival de Brasília passou por esses momentos de dúvida sobre uma possibilidade de não realização esse ano, mas com a mobilização da comunidade de cinema no Brasil, a Secretaria de Cultura do DF voltou atrás na decisão. Como diretor artístico do evento, você poderia falar um pouco como foram aqueles momentos de incertezas no começo de agosto?
Temos uma divisão de funções bem firme na organização do Festival de Brasília. Eu cuido da parte artística e a a direção da parte da produção do evento é da Sara (Rocha) e do Henrique (Rocha). Trabalhamos muito junto, com muitas trocas, mas a gente tenta deixar bem separado em tudo que é possível, embora as coisas se conectem, obviamente. Então, nesse ponto, a gente tenta preservar muito o trabalho que eu estou fazendo na direção artística toda, junto com as comissões de seleção, da montagem da programação, da conversa com os filmes. Então, minha participação nessa outra parte do processo é mínima, não só nessa questão específica desse ano, mas na gestão constante mesmo do processo tanto político institucional, quanto financeiro, etc. Tem toda uma série de outros estresses que não dá para todo mundo se preocupar com tudo. Até mesmo porque temos a obrigação de assistir a 300 longas, 1400 curtas. Se formos ainda nos preocupar com o resto, não conseguimos fazer o nosso. Então acompanhei muito lateralmente o andamento dessa questão até aquele momento. Eu estava informado de que, claro, o andamento estava um pouco mais complicado do que em outros anos, mas naquela semana em que houve o quase anúncio de cancelamento da participação da Secretaria de Estado, me envolvi ali 48 horas, que foi mais ou menos, também, o tempo que a coisa se solucionou. Sinto que para o meu trabalho, ou seja, para o trabalho artístico, fizemos todo o possível para que ele não fosse afetado no seu cotidiano com relação a esses processos. Até porque aquilo ali aconteceu quando faltava praticamente um mês para o começo do festival, então, a parte artística já estava, no sentido da concepção, finalizada. E a gente tinha trabalhado esse tempo inteiro como qualquer outra edição. Então, acho que foi um pico de tensão de 48 horas. Eu acho que, talvez, a Secretaria de Cultura, que está com uma gestão razoavelmente recente, porque houve toda uma troca lá por conta desse processo de ano eleitoral, eu acho que a Secretaria e o governo do DF naquele momento, com todas as dificuldades que eles podem estar passando, acho que eles não mensuraram exatamente o que significa esse festival tanto para a cidade, para o Distrito Federal, quanto para o cinema brasileiro como um todo, e o quanto de resposta que haveria a uma possibilidade como essa. E acho que essa resposta se mostrou robusta o suficiente que o retorno a uma quase normalidade nesse sentido foi muito rápido. Então, em um certo sentido, sinto que tem até um lembrete importante e, eventualmente, positivo desse processo e da forma que ele aconteceu, que foi tornar mais claro para alguns gestores ou algumas pessoas que não têm toda uma história ou talvez não estejam tão ligadas ao universo específico do cinema brasileiro, da história do festival de Brasília para entender que esse festival é um pouco maior do que algumas pessoas pudessem imaginar. E nesse sentido, acho que consigo enxergar algo de positivo nesse processo, porque esse lembrete do tamanho do festival tende a ter renovado uma certa questão ao redor dele que eu acho que vai ter continuidade de uma forma ou de outra. Não sei se de uma forma prática exatamente, mas certamente, de uma sensação de que esse festival realmente tem uma importância maior do que imaginaram em algum momento. Do meu ponto de vista como direção artística, foi uma questão muito pontual. Claro que muito estressante por um breve período, mas também deve ser dito aqui que nós, enquanto direção do festival, nunca cogitamos não realizá-lo. O que poderia se cancelar seria a participação da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Mas a gente ia construir caminhos alternativos. E aí, nesse sentido, é importante salientar que houve um abraço tanto da parte do Ministério da Cultura, quanto da parte dos próprios cineastas com os filmes, para entender que, talvez, o festival tivesse que ser feito dentro de uma outra realidade financeira menos confortável, mas que seria criado uma condição dele ser realizado. Então, na prática, nunca consideramos a hipótese de que o festival não fosse acontecer. O que se considerou era a hipótese do quanto a Secretaria de Cultura e o Governo do Distrito Federal desse momento, manteriam a tradição de muitas décadas de ser o principal parceiro e viabilizador do evento. E eles decidiram rapidamente, vendo a repercussão disso tudo. Perceberam que não era um bom negócio, no sentido amplo do termo, se retirar desse processo.

“A Pele Morta”, filme de Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes, abre o festival. Sendo um projeto de longa data e que teria o saudoso Geraldo Moraes como diretor, é bem simbólico vê-lo como um dos longas a serem exibidos na noite de abertura.
“A Pele Morta” é um filme que cumpre várias funções. A gente acredita que a sessão de abertura tem uma importância muito grande e, ao mesmo tempo, é um evento um pouco diferente do resto do festival até no sentido de um determinado público mais institucional que aparece. É também uma forma de celebrar o próprio festival que está começando e tudo mais. Então, acho que os filmes que temos que exibir nesse recorte específico, eles precisam ter determinadas características que são menos, eu diria, comuns de você encontrar. É muito importante ser um filme que tenha um DNA relacionado com um festival conhecido pelas reflexões sobre sociedade, política, história do Brasil. “A Pele Morta” permite tudo isso de uma forma muito direta. Não só de uma certa juventude indígena vivendo entre as tradições e os deslocamentos dentro de uma sociedade eminentemente capitalista e urbana de algumas maneiras distintas, e como encaixar os sonhos e os desejos. E como esses sonhos e desejos dessa juventude, hoje, já são diferentes, mas, ao mesmo tempo, tem toda uma ligação muito forte às tradições e a um modo de vida ao outro. Por outro lado é um filme absolutamente engajante no sentido humano, dramático, narrativo. Não é um filme em que essas questões que eu estou colocando aqui têm um peso teórico, um peso de discussão social. Antes de mais nada, isso tudo é vivenciado de uma maneira muito presente, muito viva dentro da existência de uma série de personagens, principalmente três personagens que saem pela estrada entre o Mato Grosso do Sul até o Paraguai e num retorno. É um road movie dentro de toda uma tradição desse gênero, que se passa quase todo dentro da boléia de um caminhão, entre dois ou três personagens que ficam ali convivendo e que vão traçando laços e tendo tensões e tal. Então, acho que é um filme que tem essa característica muito humana ao lidar com essas temáticas. Isso, para a sessão de abertura, é importante porque é uma sessão que tem um aspecto de um público, talvez, menos cinéfilo radicalmente ou até, talvez, menos engajado no que vai ser o festival ao longo do resto do tempo. Então, o filme de abertura, ao mesmo tempo que não pode destoar do festival, ele tem que ter uma abertura para essa plateia dessa noite festiva e ao mesmo tempo emocional. E, por último, é isso que você falou. Completando, talvez, esse, digamos, cenário perfeito de ter um filme que se encaixe em várias coisas, “A Pele Morta” tem toda essa história com o próprio cinema de Brasília a partir da figura do Geraldo (Moraes), que foi um cineasta dos mais decisivos para formação de um cinema específico do Distrito Federal e que tinha esse projeto muito caro a ele em desenvolvimento e prestes a fazer. E aí, com o falecimento dele, tendo a Solange, que era a companheira dele já nos últimos anos de vida, continuando com o projeto como produtora e chamando justamente dois filhos dele que são cineastas, artistas, um deles a Denise Moraes, que é, também, professora na UNB. Então, o filme tem uma relação muito profunda com o cinema do Distrito Federal, mesmo que seja uma produção da Bahia, filmada entre o Mato Grosso do Sul e Paraguai, na estrada. Então, assim, o filme não tem o Distrito Federal diretamente na tela, mas ele é um filme profundamente conectado tanto pelo Geraldo, quanto pelos filhos dele ao assumirem a direção, com o cinema brasiliense. Quando você junta tudo isso, a história que está na tela, os temas que estão na tela, a história da produção que está por trás, ele é um filme muito adequado para se fazer uma sessão de celebração de uma nova edição do festival. É um filme que caiu como uma luva.

E você falou sobre essa conexão de passado e futuro do cinema brasileiro sendo representados na curadoria do festival, e um dos grandes nomes presentes é o Ruy Guerra, co-roteirista de “Tempo à Faca”, filme dirigido e, também, escrito pelo Diogo Oliveira.
Verdade. Costumo dizer que o Festival de Brasília é profundamente ligado ao presente, no sentido de que ele está sempre refletindo sobre o cinema e sobre o país que a gente vive do presente, mas a forma como ele vivencia isso é muito particular. É uma forma onde ele está sempre muito atento a toda uma tradição e, portanto, a um passado histórico, mas principalmente do cinema brasileiro. E ao mesmo tempo, tentando estar conectado a esse presente através de realizadores muito inquietos na maneira como filmam ou como buscam retratar as questões, e, assim, de alguma forma apontando pro futuro. Sinto que o festival está no seu melhor quando ele consegue estar, justamente, no conjunto das coisas que ele exibe ao longo de uma edição, o tempo inteiro trafegando entre esses três tempos. Ou seja, profundamente ancorado no presente, mas ao fazer isso, muito atento ao que veio antes e talvez desvelando coisas que vão vir depois. E aí, acho que o “Tempo à Faca” é um filme que tem isso muito claro. Porque, como você falou, ele era um projeto originalmente pensado e idealizado como estrutura narrativa, como roteiro dramatúrgico pelo Rui, que é um cineasta que acabou de completar 95 anos. Dos cineastas vivos brasileiros, sem dúvida, é aquele que tem a trajetória mais ampla. Ela vai desde ali do início dos anos 1960, final dos anos 1950, na verdade, mas, principalmente a partir dos longas do início dos anos 1960 até 2024, quando o último longa dele participou da Competitiva Nacional em Brasília. Então, ele tem uma história muito larga com o cinema brasileiro e com o festival de Brasília. O Rui, por exemplo, foi assistente de direção de um filme do Walter Lima Júnior que passou na primeira edição do Festival de Brasília, em 1965. Então, ele, literalmente, está ligado ao festival desde o primeiro ano até agora. E, ao mesmo tempo, o Diogo, com o primeiro longa de ficção, é um cineasta que começou a dar passos ali ao redor do próprio universo do Rui, como assistente, escrevendo, depois fazendo um documentário sobre o Rui. É um diretor muito ligado àquele universo do ambiente criativo ao redor do Rui, mas que, de fato, está fazendo seu primeiro longa de ficção. Então, a gente entende que é um filme que também aponta para uma carreira que está começando. E na Mostra Caleidoscópio, buscamos justamente radicalizar uma coisa que está sempre presente na Competição Nacional, mas que, de alguma forma, na Caleidoscópio, nos voltamos especificamente para os filmes que, seja na ficção, seja no documentário, seja nos formatos híbridos entre essas formas, estão apontando inquietudes de linguagem, de formas de narrar uma história, de formas de filmar uma história. Acho que você ter um filme que nasce do Rui numa sessão que é voltada um pouco para, justamente, questionar para onde o cinema está indo, o que ele vai tentar na frente, um filme dirigido por um cineasta que faz seu primeiro longa de ficção, eu acho que, de novo, assim como o filme de abertura, talvez seja um conjunção muito feliz de fatores que, para mim, é algo muito específico do Festival de Brasília. Essa maneira de um filme conseguir falar do passado, do presente e do futuro do Brasil e do cinema brasileiro ao mesmo tempo. Então, ficamos muito felizes quando assistimos ao filme no nosso processo e pensamos que ele seria uma maneira renovada, talvez, de trazer o Rui para estar com a gente.

Cena de “Tempo à Faca”

E além do Ruy Guerra com co-assinando o roteiro de “Tempo à Faca”, o festival traz outro veterano na direção, que é o Julio Bressane.
Sim. Essa é outra alegria! Ter um filme novo do Julio Bressane, que também é um outro cineasta que faz essa ponte de que falei. Foi o cineasta que mais ganhou o prêmio de Melhor Filme em Brasília. Foram quatro vezes na história! E aí a gente vai passar o filme novo deles hors concours (fora da disputa). São essas pontes entre a história e a tradição do festival, o presente e o futuro, sabe? O Bressane, especialmente nesses últimos, talvez, 15 anos, desde, justamente, a última a última vez que ele ganhou o festival, que foi com o “Cleópatra” (2007), eu acho que ele começou cada vez mais a traçar uma trajetória muito pessoal, muito específica. Ele tem filmado cada vez mais filmes mais simples em termos da manufatura técnica e até financeira para que ele, justamente, não fique dependente de processos muito longos de captação, de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, realizando uma série de filmes de montagem junto com o Rodrigo Lima, que, hoje em dia, é um dos principais parceiros dele. Fazendo pequenos documentários… Acho que o Júlio, nesses 15 anos, optou por uma forma de produção muito particular dele para se manter, como alguém que acabou de completar 80 anos, muito ativo, muito presente. Todo ano tem filme novo do Julio. Às vezes curta, às vezes média, às vezes longa de ficção, às vezes documentário, às vezes tudo junto. E o “Pitico” é uma dessas aventuras. Um filme muito pequeno em termos de produção, de financiamento, de aonde ele se passa. Mas, ao mesmo tempo, com uma inventividade e uma liberdade acima de tudo muito grande. Ele é um cineasta que já não se importa mais, exatamente, com os códigos, com as dinâmicas para além da criação. Ou seja, ele não está preocupado com o mercado, com a repercussão do filme num sentido mais prático. Ele já está muito livre fazendo o que ele quer. E eu acho que o filme reflete isso. Já há algum tempo, ele tem feito esse cinema. Quando passei pela direção artística do festival pela primeira vez antes dessa, que foi entre 2016 e 2018, já tínhamos exibido o filme do Julio nessas condições. Ele não tem mais muito interesse por essa coisa de competir, de ganhar prêmio, de participar. Ele quer que os filmes sejam exibidos, sejam vistos, sejam discutidos. Então, para nós, que estamos sempre em contato com o Julio, com o Rodrigo, com esse universo, acompanhando a produção dele, quando soubemos que esse filme ia estar pronto para fazer uma estreia brasileira conosco, achamos perfeito. E a gente sabe que é isso. O Julio não está mais preocupado em competir. Pelo contrário. Ele prefere exibir fora da disputa. Um lugar à parte. Então, vai ser muito bom exibir esse filme novo. Porque são sempre descobertas. Eu estou muito curioso para ver como o público vai receber esse filme.

E não dá para deixar de citar o saudoso Silvio Tendler, que vai ter a estreia de seu último filme, o “Pontos de Partida”.
É alegria ter a possibilidade de fazer essa estreia, essa primeira exibição de um filme póstumo do Silvio. É um documentário super importante. E, de novo, Silvio é um cara que sempre deixou claro, e já nos últimos anos de carreira e de vida, já com uma série de questões de saúde, uma série de dificuldades, mas mantendo uma sede de realizar, de fazer sem parar, ele sempre deixou claro que era um cineasta sempre muito atento ao presente. É um filme sobre a questão dos pontos de cultura como espaços de reflexão e de criação cultural e de acesso à cultura por populações periféricas dos grandes centros urbanos. Nesse filme, ele parte principalmente de quatro pontos de cultura ali na região da periferia de São Paulo, mas levanta uma discussão muito maior sobre a questão do que é o ponto de cultura como ação política, como social. Então, é um filme profundamente do presente, mas de um realizador que já estava debilitado. Ele aparece no filme fazendo entrevistas e você percebe, obviamente, que já ele já estava muito debilitado, muito frágil fisicamente, mas com a cabeça e com um desejo de cinema e de política e de falar do Brasil muito vivos. E aí ele acaba falecendo há um ano praticamente, justamente, logo antes do último Festival de Brasília, no meio desse processo. Aí, o Cláudio Kahns, que é o produtor e toda uma equipe que estava ao redor, leva até o fim essa montagem, essa preparação. Ficamos muito contentes por poder celebrar mais essa figura que a gente homenageou, inclusive, no ano passado pelo fato dele ter falecido bem perto do festival. Homenageou no sentido de fazer ali todo um momento na abertura do festival para relembrá-lo. Mas voltar com ele com uma obra inédita, isso é uma grande alegria. Acho que o festival ter filmes de Julio Bressane e de Silvio Tendler e essa participação tão forte do Rui Guerra nessa outra obra, define isso para a gente. Para além de exibirmos obras clássicas, ter toda uma mostra paralela do festival chamada História(s) do Cinema Brasileiro, onde exibimos restauros de obras clássicas, exibimos documentários sobre a história do cinema no Brasil, podermos ter essa presentificação dessa tradição e desse passado através desses três nomes é algo muito precioso. Fico muito feliz porque o presente e o futuro estão sempre na tela do festival com muita clareza. Os curtas metragens, os primeiros longas, as mostras, os filmes ousados. E tem os filmes dessas figuras que, mesmo em idade muito avançada, nunca deixaram de ser extremamente inquietos e desejosos de não estarem somente felizes com seus papéis já cumpridos no cinema brasileiro, mas estão sempre reinventando o seu próprio cinema. Então, é muito legal. Acho que o festival fica muito vivo nessa combinação geral.

A Mostra Competitiva Nacional de Longas e Curtas trazem uma variedade muito boa de cineastas, como o novo filme de André Novais Oliveira, além do de Glenda Nicácio e Ary Rosa, bem como o longo mais recente de Gustavo Vinagre. Você poderia falar um pouco sobre esse processo de seleção e sobre o diálogo entre as produções?
Nós, enquanto comissão, tanto nos longas como nos curtas, tentamos ser muito respeitosos disso que a gente chama de um DNA do festival. Sempre digo que esse DNA é composto de dois elementos acima de todos os outros. Um desejo profundo de discutir aspectos mais variados da sociedade e da cultura brasileira. Sempre reforço: um norte para mim é lembrar que o festival se chama Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Esse é o nome completo dele. É o nome na carteira de identidade, na certidão de nascimento. Então, nesse ponto, além de ser o festival mais longevo do país em atividade, ele é o festival que sempre deixou claro que o seu objeto era o cinema brasileiro. É, portanto, por conseguinte, o Brasil. O Brasil tem que estar na tela nesse festival, sempre. E aí eu acho que esse é um dos vetores principais para a gente enquanto estamos discutindo os filmes inscrito. E o segundo vetor é a questão do cinema. Estamos sempre buscando filmes nos quais cineastas, seja de qual geração, seja de qual regionalidade, seja de qual representatividade de grupos, os mais distintos que eles possam ter, eles têm que ser cineastas que tenham uma curiosidade e um desejo de explorar aspectos da linguagem cinematográfica. E isso pode estar no documentário, isso pode estar na ficção, isso pode estar na animação, como a gente tem esse ano na competição, o “Ana, En Passant”, esse filme mineiro. Mais filmes que tentam explorar esses dois aspectos. Iluminar para a gente questões sobre a sociedade brasileira, mas sempre com interesse em explorar linguagem cinematográfica. Então, esses são os dois vetores que estamos em busca em todos os filmes, seja de qual gênero eles vierem. Acreditamos que nisso o festival tem que ser múltiplo, porque, também, ao falar que ele é do cinema brasileiro, ele não pode ser só do cinema de uma região ou de um tipo de cinema ou de um gênero de cinematográfico. Então, a gente vai ter esse ano animação, documentário, ficção mais clássica, ficção que bordeia aspectos do documentário. Vamos ter filme do Gustavo (Vinagre) junto com Gurcius, um autêntico filme de gênero no sentido mais específico do cinema de horror, do cinema que busca lidar com códigos da linguagem, mas em cada um desses espaços, sempre com filmes que permitam discussões profundas sobre o cinema em si, e especificamente cinema brasileiro, e sobre o Brasil, obre a nossa sociedade. É isso que a gente busca. E aí, ao juntar esses sete filmes e os 12 curtas, igualmente, claro buscamos filmes que permitam isso, mas também um conjunto de filmes que nos permita, aí sim, essa variedade. Variedade de formatos, de origens regionais dentro do Brasil, de gêneros na realização, de questões na tela, as mais distintas. A gente sempre fala isso sobre curadoria e programação: nunca é um trabalho que se trata de exatamente receber 220 longas inéditos, 300 longas no total de inscritos, não é que a gente achou os melhores. É que a gente achou os que representavam essas questões que são as tradicionais do festival e que, juntas, permitem essa variedade. A gente está pensando no conjunto. Estamos pensando nos sete filmes e não só, em um por um , eleger os melhores. E aí achamos que esse grupo de sete filmes é um grupo que permite muito isso.

Cena de “Todo o Sentimento”

E dez anos depois de “Café com Canela”, é bem legal ver Ary Rosa e Glenda Nicácio voltarem a Brasília com “Todo o Sentimento”.
Sim, para nós é uma alegria grande porque o “Café com Canela”, filme que marca a chegada deles ao cinema de longa metragem, foi exibido, nasceu para o mundo no Festival de Brasília há dez anos enquanto, justamente, eu e uma outra equipe de curadoria, mas um universo similar, estávamos organizando festival. Então, a gente se conecta a uma descoberta que nós mesmo tivemos naquele momento e permitimos o cinema brasileiro ter a partir da seleção e da exibição do filme lá. No ano seguinte, justamente, o “Ilha” foi a mesma coisa. Também passou lá! E também passou na competição logo no ano seguinte ao “Café com Canela”. E aí eles ficaram um tempo fora do Festival de Brasília. Tiveram dois filmes ainda exibidos na Mostra de Tiradentes, e algumas outras tentativas de filmes até explorando aspectos de um cinema mais comercial, algo que já estava ali indicado no “Café com Canela”, um desejo, um interesse de falar desse cinema mais popular, desse cinema mais comercial. E aí teve alguns dos últimos longas deles que nem passaram em festivais, foram direto para lançamentos comerciais. E aí, de repente, eles voltam com esse filme que não só está buscando fazer essa trajetória mais similar com aquele de dez anos atrás, como retoma especificamente a um personagem, a uma situação, uma linha narrativa do “Ilha”, mas em um outro registro. Um registro do cinema que a gente pode chamar de ficção científica no sentido de projetar um futuro que não aconteceu, pelo menos não desse jeito. Então, é uma tentativa nova. Não é um filme que reprisa coisas que eles já fizeram. E, ao mesmo tempo, é isso. É um filme que começa com imagens do 8 de janeiro em Brasília. Então, portanto, mesmo sendo um filme passado, filmado, projetado na Bahia, começa com Brasília na tela, com as questões políticas brasileiras recentes. Então, era um filme, digamos, perfeito. Acredito que talvez não pudesse estar chegando ao mundo em um outro lugar que não fosse o Festival de Brasília por tudo isso. Pelo DNA do festival, pela relação de Glenda e Ary com o festival e pelas questões que estão na tela nesse filme específico. Então, é um filme que tenho certeza que vai causar muita discussão tanto pelos seus aspectos políticos sociais como pelos seus aspectos cinematográficos. E tenho certeza, também, que é isso que Ary e Glenda esperam e querem e é isso que a gente, enquanto propositores dessa seleção de filmes no Festival de Brasília, quer sempre. Que os filmes passem pela tela do cinema no festival, mas que eles continuem vivos com as pessoas nos dias seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes. E, para nós, esse é um pouco o DNA do festival. É que as coisas todas começam e convergem para o lugar do cinema como o espaço da celebração dessa arte, mas que o cinema não termine ali dentro. Que ele vá para as ruas em vários sentidos. Acho que o “Todo o Sentimento”, certamente, fará isso.

Para fechar, queria lhe perguntar sobre a importância da seleção de outros dois filmes aqui da Bahia e que têm mulheres negras como diretoras, no caso o “Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimento”, da Viviane Ferreira, e “Mulheres do Bando”, da Thamires Vieira.
É uma alegria ter esses dois filmes na lista de selecionados. Inclusive, junto com Glenda, através do cinema baiano, temos três longas dirigidos por mulheres negra. É sempre importante quando a qualidade dos filmes e a variedade deles nos permite. E eu acho que esse é um tema muito importante, porque sempre foi uma defasagem histórica que o cinema brasileiro tem com várias diferentes representações, seja étnicas, seja raciais, seja de gênero, e que o cinema brasileiro está sempre trabalhando ativamente em vários sentidos para atualizar isso de várias maneiras, mas ainda é uma defasagem que vai levar muitos anos para essa defasagem que já ocupou tanto tempo nessa cinematografia conseguir minimamente equilibrar algo disso. E aí a gente poder ter esses três longas com direção de mulheres negras, eu acho muito forte. Porque são filmes muito fortes, cada um deles. Por exemplo, o filme da Thamires, o “Mulheres do Bando”, o grande motivo, inclusive, pelo qual ele está na Mostra Caleidoscópio é porque ele toma uma um pressuposto estético, artístico e narrativo para contar essa história que é muito peculiar, muito diferente, muito novo. Porque ele tenta ativar um pouco esse lugar da memória e dessa história do que foram especificamente essas participações femininas dentro desse fenômeno baiano tão essencial. Fenômeno baiano enquanto origem, mas que é importante para o Brasil inteiro, que é o Bando de Teatro Olodum, a partir de um de um jogo, mesmo, com atrizes de gerações bem diferentes, o que já deixa aí marcado essa questão da história, mas não da história parada no passado, mas transversal. Então, você tem atrizes do começo do processo do Olodum até o processo atual e tudo no meio interagindo e recriando nos seus próprios corpos, a partir de exercícios de atuação, de dramaturgia, de lembrança, de narração, criando esse coro dessas mulheres. Isso através, menos de uma rememoração factual pura e simples, mas mais de uma reincorporação mesmo do que foi essa história para essas mulheres do Bando de Teatro Olodum. Isso nos faz não só entender uma história ali, mas, também, pensar de que maneiras o cinema pode ousar nessa forma de tentar narrar aspectos do passado, nesse caso, por exemplo, de uma expressão cultural. Então, acho que é um filme muito ousado da Thamires nesse sentido. Por isso, para nós, o lugar dele era na Mostra Caleidoscópio, onde ele vai estar em contato com o filme do Diogo Oliveira e com outros três filmes de outros lugares cada um muito diferentes um do outro, mas todos muito inquietos e buscando explorar aspectos da linguagem. É o lugar ideal para esse filme. Por outro lado, o filme de Viviane, que já tinha passado em Salvador no próprio Panorama, ele está nessa mostra Festival dos Festivais, que é justamente um espaço em que celebramos alguns filmes importantes que estrearam em outros festivais de cinema brasileiro ao longo do último ano. E aí, de novo, gerações diferentes, festivais de origem diferentes e formatos bem distintos. E eu acho que o filme da Viviane, que já é uma pesquisa, tem um site, tem toda uma outra dimensão além, inclusive de outras coisas para além de produção audiovisual, de ensino, de universalização e democratização de acesso a vários tipos de coisas. Então, traz um movimento que o longa representa de um gesto muito maior ali ao redor desse universo, mas que eu acho muito fascinante justamente porque vai em busca, como o próprio título diz, dessa conexão, dessa história comum, de uma série de manifestações de origem afro e africana, de origem cultural, religiosa, musical, social em vários países da América Latina. Isso é uma outra coisa que, para nós, é muito interessante pensar, pois vai estar até na sessão de abertura desse ano com o “A Pele Morta”, que vai do Mato Grosso do Sul ao Paraguai, e é com o ator uruguaio, o César Troncoso, junto com o ator Luan Iturve, que é um ator indígena. Ele traz essa dimensão do Brasil enquanto país latino-americano. Muitas vezes, o Brasil, por uma série de circunstâncias históricas e atuais, tem uma tendência, às vezes, de ficar um pouco de costas para essa realidade da inserção dele em um contexto latino-americano com todos esses países próximos geograficamente. E esse filme, não. Ele vai, justamente, fundo nisso. Ele vai olhar para essa participação das populações negras, especialmente das mulheres, mas numa visão mais transversal que aí vai conectar o Caribe, vai conectar áreas da Colômbia, Venezuela, outros países da América do Sul, com toda uma tradição afro-brasileira. Essa opção pelo termo “Afrolatinas” me parece muito interessante para o que esse filme busca colocar na tela. Então, também, de novo, encaixa muito com nossos desejos, com as nossas vontades de estar no festival e dialogando com esse universo tão rico ao redor assim.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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